Costumava ter pena dos outros mas um dia teve pena de si mesmo e não gostou.
Tomava sempre as decisões erradas. Um dia tomou a certa e na manhã seguinte não pôde lamentar-se.
Sentia como que um nó na garganta. Era a primeira vez que se tentava enforcar.
Continuou sempre a dançar a mesma música, à mesma hora. Agora sozinho.
Ela tinha tudo para o fazer feliz. Ele sabia que nunca seria feliz.
Tentava sempre provocar alguma antipatia. Uma vez contraíra uma empatia que depois custou imenso a curar.
Saiu de casa com o saco de plástico dobrado, no bolso. Voltou com o saco na mão, vazio. Tinha ido colher afectos.
Era tarde. Ela ainda não tinha chegado. E a vida dele não tinha mais tempo.
Sabia que se deixasse as pessoas chegarem demasiado próximo, acabariam por desaparecer.
Pediu-lhe apenas um abraço. Mas as pessoas não estão habituadas a abraçar assim estranhos.
Estava à beira do precipício. Deu um passo em frente. Começou a atravessar a ponte de madeira.
Quando ela disse que ia tratar dos dentes de leão, ele pensou que falava de flores.
Tinha acabado de embalar o bebé. Reparou que só lhe sobrava uma mortalha.
De súbito, parou. Estava há três ruas a pensar qual seria a melhor forma de parar.
Agora, Ulisses sabia que se houvesse uma terceira vez, a melhor opção seria o mastro.
Embalado sob um sol de palavras quentes, foi acordado por palavras frias que lhe molharam o peito.
Apesar de tudo continuava a deixar as pessoas entrar e desaparecer da sua vida. Nunca mostrava a ferida que deixavam.
Passava horas naquela rocha, passeando os dedos pelo seu cabelo, desejando os lábios que não se atrevia a beijar. Até que acordava.
Beijava-a todas as manhãs. Fazia amor com ela todas as noites. Nunca lho confessou.
Percebeu tarde demais que eram os defeitos que a tornavam perfeita.
Aquela terra já não tinha nada para lhe oferecer. Mandou cobrir com terra nova.
Por fim tinha a alma vazia. Partiu.
De repente decidiu mudar tudo. E não tinha nada para mudar.
Olhou à sua volta. Já nada restava daqueles tempos.
Um dia quis estar ditado ao sol. E acariciar cabelos. E sentir lábios nos seus. Um dia ficou só ao sol a imaginar que gostava.
Deu-lhe um abraço forte e partiu-a. A boneca de porcelana era agora o passado em cacos.
Olhou-a nos olhos. Já não se lembravam dele. Desviou-se e seguiu caminho
Viu-a de perfil, ao longe, como todos os dois. No dia seguinte não foi. No dia seguinte ela olhou para onde ele não estava.
Resolveu ir direito ao assunto. Mas como sempre, perdeu-se e acabou por fazer um desvio.
A última valsa? Talvez tivesse sido ontem, ou há já muito tempo.


