Pegou na tela, colocou-a no cavalete e começou a traçar o destino
Tinha deixado o risco bem traçado. Decidiu correr o risco.
Um dia deixou de se ver fumo a sair da chaminé da sua casa.
Esperava assim conseguir espiar os seus pecados, mas viu-se exposto.
Procurou-as em toda a parte. Percebeu que perdera todas as ilusões.
Sentia-se infeliz. Um dia decidiu que já chegava.
Quando voltou a si, arrependeu-se de ter voltado.
Quando chegou o dia percebeu que aquela não seria a noite da sua vida.
Foi instantâneo. Acendeu as luzes e apagou-se.
Encontrara uma saída. Evitou-a.
Encontrara a sua cara metade. Foi à procura do resto.
Apercebeu-se que estava na rua despido de preconceitos.
Quando saiu, soube que não era a mulher que imaginara. Ligou a pedir outra.
esquecera-se que os amores perfeitos também precisam ser regados.
Sair não tinha sido fácil. Agora ali no fundo, censurava-se por ter voltado a cair no mesmo erro.
Viu o passado já longe. Demasiado distante para ainda o poder apanhar.
Um dia acordou e tinha a razão do seu lado.
Procurou-a até aos confins do mundo, mas não estava lá.
Parou para deixar passar uma oportunidade e seguiu caminho.
Era a última mortalha. E ainda lhe sobravam tantos corpos.
Apreciava cada momento ao lado dela. Foi acordado pela campainha.
Tinha tido até ali uma vida perfeita, mas o despertador acabou por tocar.
Resolvera por fim debruçar-se sobre o assunto. Acabou por cair nele.
Saiu da cama, vestiu-se, disse-lhe adeus e saiu. Nunca soube quem ela era.
Não eram as incertezas do futuro que o preocupavam. Eram as certezas do passado.
Passara anos a planear o seu suicídio. Um dia morreu.
Pareceu-lhe ver algo ao longe. Talvez um cacto. Levantou-se da soleira da porta e caminhou pela terra seca. Era de facto um cacto.
Estava endividado até à raiz dos cabelos. Mandou-o rapar.
Apetecia-lhe que fosse já amanhã. E era amanhã. E apetecia-lhe que lhe apetecesse que fosse ainda já amanhã.
Olhou lá para dentro. Constatou que a sua alma estava vazia.

