Estava escrito nas estrelas. Mas iam os dois a olhar para o chão quando se cruzaram.
Olhou o ponteiro da balança. Ganhara peso na consciência.
Um dia, parou de andar e começou a correr. Decidira alcançar os seus objectivos.
Quando lá chegou percebeu que o tempo apagara a meta que havia traçado.
Fascinava-o a forma como ela partia corações.
Foi quando regava os amores perfeitos que se lembrou que há muito tempo não colhia afectos.
Tinha que pesar bem os dois pratos da balança. Foi buscar outra.
Acreditou que podia voar. E por momentos pôde
Levantou-se da cadeira e saiu. Eram horas de ir alimentar ilusões.
Uma noite, a dormir, sonhou que passava um dia sem sonhar acordado.
Talvez fossem horas de arrumar a sala e dormir. As visitas já tinha ido embora. Há muitos anos.
Dias como aquele em que acordava bem disposto provocavam-lhe uma enorme nostalgia dos dias em que acordava nostálgico.
Evitava o contacto com outros seres humanos. Sabia que era elevado o risco de vir a ser feliz.
Decidira percorrer a pé a velha linha férrea onde por vezes ainda se faziam passeios turísticos em máquinas a vapor como aquela que não viu sair da boca do túnel.
Guardou aquele sorriso para sempre.
Entrou. Era a vida. Não tinha porta de saída.
Suspirou e sentiu a alma vazia. Depois não sentiu mais nada.
Acordou optimista, o que lhe pareceu um péssimo sinal.
Passava semanas sem receber um telefonema. Contudo, sempre que ligava para si mesmo estava impedido.
No dia seguinte iriam dar-lhe parabéns pelas incertezas de um ano que começava. Nunca davam pelas conquistas do ano de que agora fechava o livro de memórias.
Sabia que se desse aquele passo não havia retorno. Mas lá em baixo o mar chamava-o.
Percorreu de memória os cantos da casa. Há muitos anos que ali não se ouviam.
Pensou que gostava de saber como era chorar.
Pensou que talvez ela ligasse. Mesmo sabendo que só existia na sua cabeça.
Abriu a porta do frigorifico vazio e constatou que não tinha fome nenhuma.
Descobriu demasiado tarde que o arrependimento matava.
O hotel de quarenta andares só tinha quartos vagos no décimo. Foi daí que saltou. Teve pena. Sempre pensara estar destinado a voos mais altos.
Despediu-se dele e saiu, levando-lhe mais um pedaço da alma.
À meia noite fechou o livro de memórias do ano que findava. Guardou-o na estante junto aos dos anos anteriores. Em branco, como os outros.

