Levantou-se. Olhou o relógio. Cinco da manhã. Vestiu-se, abriu a porta e saiu para o escuro da madrugada.
Levantou-se. Olhou o relógio. Meia noite. Vestiu-se, abriu a porta e saiu para o escuro da noite.
Levantou-se. Olhou o relógio. Duas da tarde. Vestiu-se, abriu a porta e saiu para o escuro da tarde.
Levantou-se. Olhou o relógio. Onze da manhã. Vestiu-se, abriu a porta e saiu para o escuro do dia.
Arrependia-se por vezes de ter aceite aquele emprego em Longyearbyen no norte da Noruega.
As labaredas tornaram-se incontroláveis, altas e ofensivas. Não seria uma mangueira que iria dominar o pujante lume. Limitaram-se já os bombeiros a controlar e deixar arder até que tudo ruiu e os escombros se foram reduzindo a carvão. cinzas e araras, nada mais a fazer àquele coração que o lume da paixão ardia.
Percebeu que afinal nos búzios não se ouve o mar. E mergulhou num mar de desilusão.
Abriu a porta para tirar um pacote de leite. E não era suposto estar uma cabeça no seu frigorífico.
Pareceu-lhe ouvir o coração a bater. Mas não. Estava mesmo morto.
Por momentos teve uma ilusão. Depois passou-lhe.


