Por fim aprendera a fazer o nó de forma correcta. Passou-a sobre a viga de madeira, subiu para cima do banco e colocou-a à volta do pescoço. Pensou que ficaria bem um dramático fechar de olhos mas constatou que precisava olhar o banco para poder afastar, como fez, com um pontapé. O último som que ouviu foi um baque seco de algo a quebrar.
Deitado no chão do velho armazém olhou a corda partida. Afinal não era verdade que o algodão não engana.
Agora ali amarrado percebia porque se pensava que a existência de tribos canibais era um mito.
A realidade superava em grandiosidade tudo o que imaginara sobre o Grand Canyon. Os abismos dos vales tão mais altos, tão mais fundos do que nas fotos.
Não conseguia sentir senão espanto pelo tempo que a queda demorava. E o filme da vida que nunca mais começava a passar.
Por fim deixou de ouvir o seu coração bater. Estava surdo.
Pelo menos o coágulo na vista explicava porque mais ninguém tinha visto o eclipse dessa manhã.
Eu já cá estava, disse-lhe com um sorriso.
No interior da pequena cabine o fumo parecia fazer de propósito para manter visível a placa que lhe aconselhava num vermelho irónico "não usar em caso de incêndio".
A bomba estava pronta. Programou o temporizador com tempo para um último passeio. Estaria de volta a horas. Perfeito para um dia de aniversário.
Não fosse aquela ideia parva da festa surpresa.
Preparou tudo ao detalhe. Livros, papel, madeiras ao redor. Pegou na lata de gasolina, encharcou tudo, regou-se.
Depois, nem um isqueiro, nem um fósforo naquela casa.
Na pilha combustível um maço de tabaco amarrotado alertava que "fumar mata".
Tinha prometido que hoje esperaria. Andava há demasiado tempo a evitar encontrar-se consigo mesmo.


