Tinha saudades das cartas em papel. Decidiu enviar uma carta a si mesmo.
Ficou sem saber se a tinha recebido ou se tinha vindo devolvida.
Adorava aquela sensação da areia quente no corpo, sentir o sol na pele. Mas na praia, não ali, perdido no meio do deserto.
Ia ser mais um dia de sol. Fechou as persianas, correu as cortinas, acendeu a lâmpada negra e fez-se escuro.
A água começava a ficar fria e as pernas um pouco cansadas, a pedir o calor do sol.
No navio talvez já tivessem dado pela sua falta.
Marcou o número e esperou. Um dia acertaria no dela.
Já a sair a porta, não conseguia decidir se iria para a vida real ou para a imaginária.
Sabia que se tinha esquecido de alguma coisa. Mas não se lembrava do nome dela.
Talvez se estivesse a tornar repetitivo. Talvez se estivesse a tornar repetitivo. Talvez se estivesse a tornar repetitivo.
Gostava de ver o reflexo da cara dela ao lado da sua no espelho. Lembrava-o de quando estivera lá.
Sabia que aquele oásis era real e fez um esforço adicional para passar à volta. Estava no deserto para ver miragens.
Mergulhou. E deixou-se lá ficar.
Arrastou o corpo sem cabeça para fora de casa. Sob o telheiro, a pilha de crânios ia crescendo por baixo da janela de guilhotina.
Arrumou os papeis na secretária, fechou a porta do escritório e saiu. Resolvera meter folga durante o resto da vida.
Naquele momento a imagem dela desfez-se em pó na sua cabeça. Quando a poeira assentou, varreu-a do pensamento.
Rapou com a lâmina de barbear todo o cabelo, mergulhou a cabeça na água fria e lavou metodicamente os pensamentos.
Sentiu que já não tinha forças para acabar. Deixou-se cair. Estivera tão perto de começar.
Cansado, sentou-se. Olhou para cima. Dois, três abutres pacientes num galho de árvore. Às hienas, ouvia-lhes o riso tétrico não muito longe.
Detestava zoológicos.
Não podia deitar ao mar todas as lembranças do passado metidas numa caixa.
Pousou-a e saltou.
Olhou a agenda satisfeito. Mais uma vez chegara ao final do dia sem ter feito nada do que planeara de manhã.
Olhou para trás uma última vez e por fim teve a certeza de que o passado já não o perseguia.
Voltou-se e esbarrou com o futuro.
Deu-se conta que já não destrinçava as cinzas dela da poeira acumulada.
Tardava em chegar. E ainda lhe faltava tanto para partir.
Retirou do forno o frango que assara a tarde toda. Trinchou com perícia. Serviu na travessa e colocou no lixo.
Para um vegetariano era impensável a ideia de comer um animal.


