Decidira rapar o cabelo. Pensava na melhor forma de lhes imobilizar a cabeça.
Detestava ter que descer todos os dias aquelas escadas que depois teria que voltar a subir até casa.
Um dia talvez experimentasse o elevador
Viu o coelho entrar e sem hesitar mergulhou de cabeça no buraco na base do tronco da enorme árvore.
Acordou naquele sítio estranho onde todas as pessoas que andavam vestiam batas brancas e as deitadas, uma espécie de pijamas azuis.
Deixou de ligar a televisão, o rádio, o computador, de ler jornais, de abrir a porta e de atender o telefone quando tocavam. Nem os presentes de Natal abriu.
Decidira morrer de curiosidade.
Ao fim de tantos anos, a esperança de encontrar a dona daquele sapato mantinha-se de pé.
Colocou os dois pés dentro do vaso. Cobriu com terra. Regou. Por fim encontrara um sítio onde criar raízes.
Partiu em busca da felicidade. Não tinha ideia de onde a pudesse ter deixado.
No primeiro dia comprovara que era o único sobrevivente. Agora, ao fim de uma semana sozinho na ilha, aventurara-se a explorar o outro lado. Foi quando viu o resort de turismo.
Não percebia porque resistiam tanto. Sabiam que as tinha convidado para posar para uma natureza morta.
Bárbara devia ser o seu nome. Apontou no telemóvel junto com o número que ela não lhe tinha dado.
Ao longo do caule iam-lhe nascendo pétalas até desabrochar num molho de espinhos.
Começara naquele dia, há três anos, a andar de autocarro. De manhã à noite. Em todos.
Ainda não voltara a vê-la.
Há quinze anos deitado naquela cama, os médicos não conseguiam determinar a causa da sua imobilidade.
Desistiu de esperar. Levantou-se e foi-se embora.
Como todas as noites, antes de se deitar fez a lista de coisas que não iria fazer no dia seguinte.
Apesar de tudo gostava da calma, do sossego, do isolamento que aquele local lhe proporcionava.
Estar preso não era assim tão mau.
Cortar uma seria fácil mas depois decepar a outra mão seria um problema que teria que resolver. Estava decidido a subir na vida a pulso.
Era capaz de passar horas ao telefone com ela. Pena que o atendedor automático só gravasse três minutos de cada vez.
Estava farto de dar voltas à cabeça, de puxar pela cabeça. Começava a achar que ela não ia sair assim tão facilmente.
Sabia que da forma como a nave tinha sido atingida, dificilmente conseguiria chegar à estação espacial e estava sem munições para continuar o ataque.
Desistiu e mudou de jogo.


