Tirou uma vez mais os auriculares das orelhas para conseguir ouvir o que lhe diziam. Era difícil apreciar a música da terra se continuasse a ser interrompido para avisar que trazia o fio a arrastar pelo chão.
Procurou-a por toda a casa. Não estava. Talvez tivesse saído. Ou nunca tinha entrado. Era indiferente. Não estava.
A justiça é cega. E ela tinha sido injusta com ele.
Fixou o olhar no reflexo do rosto dela com a lua ao lado na poça de água. Distrairam-no as gotas de chuva que voltavam a cair do céu carregado de nuvens daquela noite de lua nova.
Gostava de ter como companhia apenas o som do velho aparelho de telefonia mas ia para uma semana que nenhum posto emitia, como se o mundo se tivesse calado.
O silêncio tornou insuportável. Decidiu sair para comprar pilhas.
Viu-a na rua. Tinha o rosto mais belo que alguma vez vira. Levou-o para casa.
Após mais uma noite no mar, chegava à doca com o barco carregado de peixe. Como de costume, lançou todo o pescado ao mar antes de atracar, não fossem pensar que a vida lhe corria bem.
Era um quarto para as três. Era um quarto para as cinco. Era um quarto para as sete.
Mudou de casa. Eram nove e três quartos.
Esperou ainda mais uma hora. Ela garantira que não iria jantar com ele mas podia estar atrasada.
Entrou na água e nadou até já não ter pé. Por sorte o tubarão não era grande.
Era de facto única aquela sensação de caminhar no deserto até não ver vestígio de civilização mas agora começava a aborrecê-lo não saber para que lado ficava a aldeia.
Acordou sentado no sofá. Num sofá, que não o seu. Tudo naquela casa lhe era estranho. Abriu as janelas. A rua não era a sua. Pegou nos sacos e saiu antes que os donos voltassem.
Acordou em pânico. Perdera a memória e não se lembrava onde.
Cada vez mais optavam pelo forno crematório em vez do tradicional enterro. Agradava-lhe. Nunca tinha conseguido abafar totalmente o som das pancadas na madeira.
Ansiava por uma noite de amor com ela. Mas não tinha a certeza se estava disposto a deixá-la comer-lhe a cabeça.
Não acreditava na reencarnação. Já acreditara, mas isso fora em vidas passadas.
Gostava de ficar a ver o pássaro na gaiola. Tentava-se a abrir a portinhola mas era demasiado pequena para entrar.
Não cabia em si de contente. Explodiu de alegria.
Tentara já com todos os produtos de limpeza que tinha em casa. Comprou detergentes, lixas e lixívias, solventes e diluentes.
Nada parecia conseguir apagar aquela mancha de pecado.
Colocou o corpo sobre o enorme braseiro de onde agora emanava um calor apropriado para assar a carne.
Ela sempre lhe dissera que apenas ambicionava uma vida bem passada.
Acordou a meio da noite sobressaltado. Sonhara que tinha cegado. Acendeu a luz e deu-se conta de que de facto não via. Deitou-se para dormir um pouco mais.
Era mais fácil trocar a lâmpada de dia.
Sabia do seu fascínio por salto altos. Beijou-a e empurrou-a do alto do penhasco.
Não conseguia imaginar passar o resto da vida confinado àquela cadeira de rodas.
Levantou-se e saiu da loja ortopédica.
Levantou-se da cama, despiu a gravata e o fato, vestiu o seu melhor pijama e saiu para comprar o jornal.
Pediu-lhe uma vez mais que subisse com ele. Não gostava de dormir sozinho. Recebeu como resposta a indiferença de todas as outras noites.
Ela não era assim quando estava viva.
Estava mais magro. Apercebeu-se no dia do casamento, ao vestir o fato.
Mas agora, ali no altar, era tarde para fazer mais um furo no cinto de explosivos
Ele queria perder-se. Ela queria ser encontrada. Demasiado fácil.
Construíram um labirinto.
Içou a vela e fez-se ao mar. Quando por fim já não avistava terra sentiu falta de um barco e a vela teimava em não acender.
Naquele momento decidiu partir a corda que o guiaria à saída do labirinto. Sabia que já não queria voltar para trás.


